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Abaixo um texto muito interessante sobre o consumismo analisado por uma psicóloga. Em um trecho ela resume bem o que foi dito na ultima aula (06/06/2008): "Podemos consumir e estar presentes ou podemos sumir dissolvidos na idéia que nos consome." ou seja: Somos consumidores ou somos consumidos?
A histeria deu início aos estudos da psicanálise e denunciava o inconsciente reprimido da época. O adoecer, depois, passou a ser representado pelo alcoolismo, mais tarde pelos assassinatos em série, depois pela esquizofrenia e pelo narcisismo, chegando aos anos 70 com o slogan “Paz e Amor”, tempo das experiências com as drogas e o amor livre.
Hoje nossa cultura sente-se representada pelos transtornos do humor, fobias, depressões,
pânico, anorexia, bulimia, compulsões de toda ordem. Estamos subdivididos em desejos e sofrimentos, buscando na realidade externa a completude para nossas angústias, assaltados por nosso próprio inconsciente, vivendo em ansiedade permanente.
Neste cenário de dor e aflição os especialistas do mercado de consumo se organizam para nos separar em finas células. Conectados às nossas feridas narcísicas criam ilusões e promessas de completude. Passamos a existir vítimas deste movimento que não cessa.
Não optamos, mas caminhamos hipnotizados para o fatiamento, iludidos com o paraíso, com o grande encontro. Caminhamos em direção ao menos crendo que ele seja o mais.
Nesta realidade não consumimos objetos e serviços, mas idéias de ambos. Sua qualidade e real utilidade permanecem fora de foco. Nosso olhar concentra-se na ilusão que a posse do objeto nos garante.
Passamos a buscar perfeição, ou melhor, a idéia de perfeição e os nossos movimentos ficam condicionados à perspectiva do outro. Somos então não mais unidade, mas fatias do consumo. Subdivididos em rápidos alívios e intensas ansiedades.
Mas, se tudo o que vivemos interiormente se materializa externamente, se tudo o que é inconsciente é projetado, então as facas que nos atacam também nos pertencem.
O mercado, esse fatiador, na realidade nos serve, atendendo com muita competência nossas necessidades. Somos assim, ao mesmo tempo fatias e fatiador. Os múltiplos deuses a quem adoramos e nos oferecemos em sacrifício se alimentam de nossos múltiplos desejos.
Sob essa perspectiva vamos encontrar o inconsciente no shopping center, nas campanhas publicitárias, na mídia. “Shop Tudo”: esse é o lugar que recebe nossas projeções. Esse espaço habilmente composto de imagens tentadoras, onde sucumbimos em fantasias de poder e de perfeição, em compulsões, em investimentos megalomaníacos, em adições e distúrbios alimentares. Facas precisas nos subdividindo em desejos pulsantes.
A psique reage a tudo isto nos deprimindo, cultivando doenças que nos incomodam, que nos movem para outras regiões onde, então, possamos ser sujeitos e não objetos.
As medicações comprovadamente não funcionam sem um olhar para o espaço profundo de nossas almas. Acabamos exaustos, procurando uma possibilidade de reflexão que nos devolva à nossa própria essência.
Na tentativa de buscar um relacionamento com esses objetos cortantes, executores da nossa vontade, encontro no oriente, nas lutas marciais, nas defesas contra facas, adagas e espadas o Ma Ai o espaço da integridade do indivíduo, o que mede a necessidade de resposta. Ma Ai é praticado em todas as artes orientais. É uma referência para qualquer ataque, armado ou desarmado.
Ma Ai é a noção de distância, a capacidade de se situar perante um ataque de modo a obter a melhor reação defensiva. A compreensão do Ma Ai vai além de simplesmente distanciar-se, nos ensina a tratar o adversário como um honrado visitante, não permitindo o contágio, mas abrindo um espaço para o relacionamento.
Poder reconhecer a força do mercado de consumo sobre nossa vontade, poder acolher suas tentativas de invasão em nosso inconsciente nos encaminha para outra perspectiva, a reflexão. Construímos assim um espaço de relacionamento que nos permite uma relação não mais imediata com os eventos e que, portanto, determina as diferenças entre nós e o que nos acontece. Entre o agente e a ação existe o momento reflexivo que impede as compulsões e promove a consciência. Poder dialogar com as idéias que sustentam nossos complexos nos liberta.
Dentro da realidade atual o consumidor fatiado, vive a ilusão de atuar com liberdade diante de suas escolhas, mas é o desconhecimento de suas próprias idéias perante os objetos de desejo que cobre seus olhos com os véus de Maia, a ilusão. Podemos consumir e estar presentes ou podemos sumir dissolvidos na idéia que nos consome.
Podemos optar por uma relação prazerosa com o mercado e com tudo o que ele nos oferece na medida em que nos recusamos a uma relação compulsiva e inconsciente. Isso é Liberdade.
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Lunalva Fiúza Chagas é psicóloga, integrante do IPAC (Instituto de Psicologia Analítica de Campinas), filiado à AJB (Associação Junguiana do Brasil) e ao IAAP (International Association for Analytical Psychology), Suíça.
criado por Leandro Breda
17:01:54